“Eu amo Trás-os-Montes naquele silêncio das florestas e das estradas afastadas que aguardam ora a neve, ora o pavor do Verão. Amo-o ainda mais quando vejo a cor da terra e a sombra dos seus castelos em ruínas, quando suspeito o fundo dos rios, os recantos junto dos açudes e a altura das árvores. E perco-me desse mal de paixão, quando, de longe, Trás-os-Montes se assemelha vagamente a uma terra prometida aos seus filhos mais distantes, ou mais expulsos, ou mais ignorados, ou mais mortos apenas. E amam-se aquelas árvores porque vêm do interior da terra, justamente, sem invocar a sua antiguidade ou a sua grandiosidade. Ama-se o frio, até, o esplendor das geadas sobre os lameiros, o sabor da comida que nunca perdeu a intensidade nem a razão. E amam-se os rios, os areais, os poços das hortas, as cancelas de madeira que vão perdendo a cor, e talvez se amem o fogo das lareiras, os ramos mais altos dos freixos e das cerejeiras, os jardins abonecados das suas cidades, o granito das casas, o cheiro das aldeias onde ao fim da tarde se chama paz ao silêncio e se dá nome de chuva à água do céu.”
Francisco José Viegas

sexta-feira, 23 de julho de 2010

As segadas

As segadas desde tempos longínquos marcaram sempre presença nos trabalhos das gentes da nossa terra . Ainda me recorda de a ceifa ser feita toda à mão . A palha depois de transportada para as eiras era aí malhada pela "malhadeira" movida por umas correias ligadas a um tractor agrícola . Durariam cerca de um mês para que as segadas ficassem concluídas na aldeia . Hoje em dia demoram pouco mais que dois pares de dias, como se verificou este ano .
Da ceifa à mão veio a ceifa à máquina .
Anos depois, apareceram as "pandeiretas", cujas maquinetas serviam para segar a palha e os fenos . Seguradas por braços fortes e firmes, eram alguns fidalgos que as manobravam dias inteiros, por vezes semanas seguidas . As horas de sesta eram as de maior penitência, o calor apertava e no nariz o suor quase corria a fio !

Uma cerveja fresquinha era sempre bem vinda, oferecida por quem lhes tinha chamado a fazer a segada . Menos bem vindo seria um estacão esquecido e escondido no meio do feno alto... ouvia-se um barulho e, lá se tinha partido um ou dois dentes da lamina, o que levava algum tempo, por vezes horas, a tentar solucionar o problema . Braveza e coragem, serão talvez as palavras de louvor dedicadas aos fidalgos David, o Inácio(irmão) e ao José Manuel(presidente), são as pessoas de que eu me lembro e que dispunham dessas maquinetas .
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" trazendo as actuais ceifeiras debulhadoras( como podemos verificar nas fotos), tornando este processo mais fácil e cómodo . Já não se semeia tanto como antigamente, daí a colheita ser muito reduzida; quer isto dizer que o que se semeia seja só para consumo próprio . Em Paradela já houve quem tivesse uma ceifeira debulhadora, sabiam ?

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