“Eu amo Trás-os-Montes naquele silêncio das florestas e das estradas afastadas que aguardam ora a neve, ora o pavor do Verão. Amo-o ainda mais quando vejo a cor da terra e a sombra dos seus castelos em ruínas, quando suspeito o fundo dos rios, os recantos junto dos açudes e a altura das árvores. E perco-me desse mal de paixão, quando, de longe, Trás-os-Montes se assemelha vagamente a uma terra prometida aos seus filhos mais distantes, ou mais expulsos, ou mais ignorados, ou mais mortos apenas. E amam-se aquelas árvores porque vêm do interior da terra, justamente, sem invocar a sua antiguidade ou a sua grandiosidade. Ama-se o frio, até, o esplendor das geadas sobre os lameiros, o sabor da comida que nunca perdeu a intensidade nem a razão. E amam-se os rios, os areais, os poços das hortas, as cancelas de madeira que vão perdendo a cor, e talvez se amem o fogo das lareiras, os ramos mais altos dos freixos e das cerejeiras, os jardins abonecados das suas cidades, o granito das casas, o cheiro das aldeias onde ao fim da tarde se chama paz ao silêncio e se dá nome de chuva à água do céu.”
Francisco José Viegas

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Paradela in Roteiros de Chaves


Texto Retirado de: “Roteiros de Chaves”, editado pelo Grupo Cultural Aquae Flaviae em 1998. Fotos de Joaquim Carvalho

Situa-se esta povoação a uma altitude de 650/660 metros e dista 15 quilómetros da sede do concelho. Pertenceu ao concelho de Monforte de Rio Livre até 31-12-1853, data em que foi dissolvido e incorporado no concelho de Valpaços e Chaves. Eclesiaticamente pertenceu à diocese de Miranda do Douro e depois Bragança, passando em 1922 à recém criada diocese de Vila Real.

“Os seus campos, que se alargam num aprazível vale, são atravessados por um curso de água que desce da vizinha serra de Mairos. São férteis e produzem abundantemente as culturas regionais.

Esta povoação assenta no regaço da serra , acha-se a uma apreciável altitude, tem abundância de boa e cristalina água, e o seu clima é bom e sadio, embora na estação invernosa seja bastante frio.”

A sua população era de 395 habitantes em 1981, tendo decrescido para 295 em 1991, em conformidade com o respectivo censo populacional.

Foi instituída a Associação Recreativa e Cultural Fidalgos de Paradela, em 06-08-1986 com a quota variável mensal de 50$00. Não foi dissolvida, porém, carece de reactivação.

Qual a origem do topónimo de Paradela? Algumas opiniões tem havido., tais como: “Dois irmãos cavaleiros à guisa de exploradores ou fugitivos da sociedade, toparam um alto onde se lhe deparou o vale de Paradela.
- Que linda e ampla veiga a que se encontra!
- Pára nela, lhe disse o outro num gesto de desdém...
- Pois hei-de parar... e como disseste “Para nela”, há-de ser esse o nome do nosso acampamento.
E daqui veio – dizem os naturais – por mudança do “N” em “D”, o nome de Paradela”.

Para além desta e outras bonitas palavras laudatórias dos referidos cavaleiros, que se perfilham também, há a vontade criadora e simples do povo para justificar o nome dado às coisas. O Abade de Baçal, Viterbo e também o Padre João Vaz de Amorim informam que “Parada se refere a um tributo ou foro, pago ao direito senhor. O próprio nome da povoação – Paradela deriva dum foro a que se dava o nome de Parada, ‘Jantar, Comedoria, Comedura, colecta, Colheita’ (Vida ou Visitação quando se tratava de bispos ou outras pessoas eclesiásticas) foro esse que o povo pagava aos senhores da terra, quando nela apareciam o qual consistia em lhe darem certa quantidade de mantimentos ou dinheiro, para mantença ou aposentadoria deles e da comitiva.”

Estes costumes agora citados são referentes aos séculos XII a XV o que leva a supor que o topónimo de Paradela tivesse tido origem uns bons séculos atrás. Ora vejamos. No lugar do Amêdo, bem perto da povoação e na margem direita do ribeiro do Torneiro, existiu um povoado romanizado. Ali foram encontrados uma mó manuária, um pio, pilão ou pieiro, em pedra regional. Após uma ligeira prospecção à superfície, foram detectados pedaços de “tegulae” e cerâmica doméstica. De Aquae Flaviae (Chaves) saia uma via romana, conhecida por “Calçada das Minas”, passava nos termos de Vila Frade, Lamadarcos, pela margem direita do ribeiro Rosmaninho, ia a Vilarelho de Cota, Enxames e ... Asturica Augusta. Dessa via saiam ramais de vias secundárias, sendo uma delas para o Castro da Tróia, em Mairos, um castro entre os termos de Curral de Vacas e Paradela de Monforte, o castro onde agora assenta o Castelo de Monforte de Rio Livre, etc. É sabido que, no planalto entre Curral de Vacas, Mairos e Paradela, existe o milenário topónimo Vereia. Este vocábulo é formado pela contracção de duas palavras latinas “vehere rheda”, significando a primeira – arrastar, puxar, levar ou trazer; a segunda significa – carro de quatro rodas que, “arrastada por oito ou dez cavalos ou muares, a Reda era uma carro de transporte colectivo de passageiros e para cargas pesadas. Era também...”

Com isto poderá concluir-se que os referidos carros puderam transitar por esse lugar, ao qual os povos limítrofes de então apelidaram de “vehere rheda”, dando origem aos topónimos derivantes: vereia, vreia, vrea, bereia, breia ou brea.

A organização administrativa romana era admirável. A deslocação das suas colunas militares e não só, obedeciam a normas regulamentares e criaram bases para chegarem ao destino com, pelo menos, o mínimo de condições. Assim, em lugares previamente estudados, cidades ou cruzamentos viários importantes, estabeleciam as chamadas “mansiones” e “Stantiones / mutationes”. As “mansiones” eram estalagens ou albergues para acolher com dignidade os viandantes, as suas cavalgaduras e carros e demais coisas necessárias para continuar a marcha, incluindo a substituição de animais. As “stationes / mutationes” eram paragens em lugar de guarnição, destinadas a algum descanso, tomada de alimentos e mudança de animais e possíveis arranjos indispensáveis. Entre as “mansiones” e “mutationes” havia, naturalmente, as chamadas “paratas” ou paradas, paradelas ou paradinhas, mais ou menos certas, para as pessoas e animais se dessedentarem, ajustar os arreios dos animais ou cargas, com um curto descanso. Assim, em meu entender, teria nascido o topónimo de Paradela, sendo-lhe acrescido mais tarde o determinativo de Monforte, sem desvirtuar as informações atrás indicadas, relativas aos séculos XII a XV, adaptadas no seu espaço e tempo.

Caminhemos então pela aldeia, paulatinamente.

Após um pontão sobre o Ribeiro do Torneiro, denominado de Ponte de São Martinho, está composto um marco rectangular comemorativo do evento, com manifestação de foros de fidalguia. Tem uma legenda em três das suas faces que, para uma fácil leitura se descrevem.



“HONRA A TODOS OS BENEMÉRITOS * TEM A NOSSA ESTRADA 2534M”

“ PONTE NOVA DE SÃO MARTINHO FEITA EM 11-11-1928 VIVA O POVO TRABALHADOR FIDALGOS DE PARADELA”

“O TRABALHO É HONRA – GLÓRIA E VIRTUDE”

Muito a propósito, a Câmara Municipal mandou lançar em acta um voto de louvor à Junta de Freguesia: “por ter com um pequeno subsidio, construído um troço de estrada, de 6m de largo por 3000 de comprimento”

Entrando na parte antiga da aldeia iremos encontrar a vetusta e interessante Capela de Nossa senhora do Rosário, com uma galilé suportada por quatro colunas rectangulares, parecendo ter sido de construção posterior. Nela houve enterramentos desde tempos recuados.



Na construção ou reconstrução da galilé ou cabido, do lado direito, está inserida uma pedra tumular com uma inscrição, ilegível, pelo descuidado cimento que lhe deitaram, porém contendo bem nítida a data de 1719. O seu chão é lajeado. Lateralmente, a capela tem uma janela em arco, em forma de seteira para iluminação diurna. Tem uma sineira simples sobre a parede lateral do telhado, em estilo galaico-transmontano. É rematada com uma cruz latina. Inicialmente estaria no frontispício, devendo ter sido mudada para adaptação da galilé.

Merece uma visitinha, muito embora o seu interior seja bastante sóbrio e modesto. A porta de entrada é um arco de volta inteira e de bordo biselado. Evidenciam-se nele mostras cordiformes, intercaladas com esculpidos de objectos sagrados e figurações antropomorfas.

Próximo desta capela encontra-se a parte restante de uma fachada de uma casa senhorial agrícola da primeira metade do século XVIII, já muito degradada e alterada. As suas janelas já inoperantes, tem boa moldura de pedra, com mísula, um luxo naqueles tempos. Entre elas estão salientes duas interessantes gárgulas para escorrência das águas pluviais. A beira do telhado apoia-se numa típica cornija e sobre a padieira da entrada principal está uma bonita cruz latina, suportada por uma interessante peanha com desenhos de adorno, em baixo relevo.

Manifestação de religiosidade e riqueza do século XVIII

No dintel da entrada tem a seguinte inscrição:
I (esus) ----+---- (ominis) S (alvator)
1730

Caminhemos pelo centro da aldeia e vamos visitar a Igreja Paroquial. É sóbria de linhas, mas ela aí está sobranceira e donairosa a todos os que aqui passam. Na sua frontaria um arco peraltado de volta inteira adorna a porta principal. Mais acima, em forma de seteira, abre-se uma janela de penetração de ar e luz. Uma torre sineira, emoldurada em estilo galaico-transmontano, suporta uma cruz latina e dois pináculos, completando assim a harmonia da sua fachada.




A sua padroeira é Nossa Senhora das Neves, cuja festividade se comemora no dia 5 de Agosto. Considera-se a festa dos casados. Um casal toma o cargo de zelar anualmente a Igreja Paroquial. Ele fazendo o ofício de sacristão, e ela cuida da limpeza da igreja, paramentos sacerdotais, etc., principiando no dia imediato à festividade. No término do ano o casal organiza a festa, como desfecho, onde não pode faltar um frango, uma cabaça de vinho, um cacho de uvas, uma melancia e as respectivas chaves da igreja.



Com alguma pompa e circunstância, o ramo é entregue ao casal já apontado e, à porta deste, é feito o baile da entrega do ramo, trocando os homens as suas mulheres, isto é, um dança com a mulher do outro e assim vai continuando a tradição.
Entremos pela bonita e velhinha porta travessa, de arco elipsoidal e de aduelas alargadas na sua metade inferior Porém, antes de entrar, vejamos a belíssima e algo misteriosa inscrição postada ao seu lado direito.



Está escrita em palavras sincopadas e letras conjuntas cuja transcrição, em linguagem corrente, respeitando a forma da época é:
“NESTA IGREJA SE DIZEM TRES MISSAS REZADAS E Hà CÂTADA CADA ANO CÕ Hà PERNA DE VACCA PERA OS POBRES PREZENTES PELA ALMA DOS INSTITUIDORES DE Q SE NAÕ SABE OS NOMES HE DA COROA. 625¬”

O mistério que encerra esta inscrição já vem desde 1625, e que, já então, diziam, “pela alma dos instituidores de quem não se sabe os nomes”, ou não convinha saberem-se, talvez por motivos políticos. Até agora continua o mistério do conhecimento dos “instituidores”.





Em 1965, por ocasião de um restauro no interior da igreja, incluindo o revestimento das paredes com azulejos, ao tirar o reboco junto à porta travessa, que era rectangular de ambos os lado, verificou-se que esta porta era falsa. Retiraram-se as pedra postiças que a compunham e surgiu bela porta de arco, e que agora se admira. Ainda lá se encontram os gonzos da pedra, bem puídos pelas portas couceiras, tendo uso semelhante a porta principal.



A igreja é de uma só nave e capela mor. As suas linhas são simples, com o altar mor e dois laterais O púlpito agora em desuso, foi construído em 1730, ou por ocasião de um aumento da igreja ou por encaixe. O seu acesso é pela nave, por uma escada de pedra com um corrimão de madeira e apoiado numa interessante coluna e pedra. Tem a seguinte inscrição em palavras sincopadas e letras conjuntas:

SEND IUIS GLZ


Informa esta inscrição que o púlpito foi feito “SENDO JUIZ JOÃO G(onça)L(ve)Z, fazendo parte da comissão fabriqueira da igreja.



Ao fundo da nave encontra-se uma bonita pia baptismal, em boa pedra da região, do estilo manuelino, com a sua copa em polígono de doze lados e com cercaduras cordiformes. Na extinta sacristia, fazendo agora parte da igreja mor, encontram-se na parede exterior da primitiva igreja, três curiosos modilhões de cabeças antropomorfas. Parecem ser de coetâneos da data de 1240 e que se encontra patente em uma pedra de uma fiada da parede sul.



Certamente, por ocasião de um aumento e restauro houve o feliz cuidado de recolocar, bem à vista, em duas pedras unidas, as datas de 1872, último aumento e, 1240, a muito provável data da feitura da primeira igreja. Estes dados permitem que esta igreja se possa classificar como estilo românico simples, do século XIII.

Na década de 1930, na sacristia, encontrava-se um bonito quadro dourado, com uma bela pintura, em retábulo, de Nossa Senhora do Leite.

Depois de vários anos de maus tratos da irresponsável garotada, acabou por ser vendido, na década de 1970, a um antiquário de Braga, conforme informações recebidas.

Junto à igreja situa-se uma grande e boa casa senhorial agrícola. Encontra-se desabitada.

Pertence à mui distinta família Morais Sarmento, onde também possui bom e dilatado património rústico. Na citada casa nasceu, em 23 de Setembro de 1886, o distintíssimo lente e reitor da Universidade de Coimbra, Doutor António Luis de Morais Sarmento. Faleceu em Vidago, em 11 de Agosto de 1941, sendo sepultado em Faiões, a seu pedido.

2 comentários:

Márcio Santos disse...

Excelente Joaquim!

Pena a dita casa senhorial não ser aproveitada para Turismo de Habitação!

Vasco JR Silva disse...

Excelentíssimo Senhor Joaquim Carvalho, a leitura exacta da lápide da Igreja Matriz, é a seguinte:

«NESTA IGREJA SE DIZEM TR(e)S / MISSAS REZADAS E H(u)Ã CÃTADA / CADA ANO COM H(u)Ã PERNA DE VAC- / CA PERA OS POBRES PREZE- / NTES. PELA ALMA DOS INSTITV- / IDORES DE QUE SE NÃO SABE / OS NOMES. HE DA COROA. 6ZS».

Com os melhores cumprimentos.

Vasco Jorge Rosa da Silva.
Universidade de Coimbra.