“Eu amo Trás-os-Montes naquele silêncio das florestas e das estradas afastadas que aguardam ora a neve, ora o pavor do Verão. Amo-o ainda mais quando vejo a cor da terra e a sombra dos seus castelos em ruínas, quando suspeito o fundo dos rios, os recantos junto dos açudes e a altura das árvores. E perco-me desse mal de paixão, quando, de longe, Trás-os-Montes se assemelha vagamente a uma terra prometida aos seus filhos mais distantes, ou mais expulsos, ou mais ignorados, ou mais mortos apenas. E amam-se aquelas árvores porque vêm do interior da terra, justamente, sem invocar a sua antiguidade ou a sua grandiosidade. Ama-se o frio, até, o esplendor das geadas sobre os lameiros, o sabor da comida que nunca perdeu a intensidade nem a razão. E amam-se os rios, os areais, os poços das hortas, as cancelas de madeira que vão perdendo a cor, e talvez se amem o fogo das lareiras, os ramos mais altos dos freixos e das cerejeiras, os jardins abonecados das suas cidades, o granito das casas, o cheiro das aldeias onde ao fim da tarde se chama paz ao silêncio e se dá nome de chuva à água do céu.”
Francisco José Viegas

sábado, 20 de junho de 2009

Igreja de S. João Baptista de Cimo de Vila ( e de Paradela)

Hoje ao navegar um pouco pela internet para recolher informação sobre os lugares e a história da nossa região deparei com algumas fotos que me deixaram curioso, encontrei fotos da Freguesia vizinha de Cimo de Vila Da Castanheira onde pude ver que, as passadeiras de flores nas ruas, nomeadamente no Corpo de Deus, não são exclusivo da nossa aldeia!



Imagem: http://cimodeviladacastanheira.blogs.iol.pt/

Posto isto, tentei encontrar alguma informação que nos pudesse relacionar com a aldeia de Cimo de Vila da Castanheira, qual não é o meu espanto quando encontrei isto:


A aldeia de Cimo de Vila da Castanheira é talvez o povoado mais antigo da região flaviense. Embora não se saiba ao certo qual o primeiro povo que aí se fixou, sabe-se que a existência de um castro (no Alto de S. Sebastião) comprova que mesmo já existia antes de Cristo, pois calcula-se que terá sido construído pelos Celtiberos. Ainda hoje se vêem vestígios do mesmo embora tenha sido destruído já nos finais do século XX.

Mais tarde foi habitada pelos Romanos, e pelos Quarquernios (cuja existência se comprova pela toponímia de locais como «quarquas») os quais participaram na construção da Ponte Romana de Chaves.
Sendo mais tarde habitada pelos Mouros (ver que o Castelo do Mau Vizinho se chama também Castelo dos Mouros) e terá sido reconquistada pelo Conde Odoário, irmão do Rei Afonso III das Astúrias e Presor de Chaves que por seu irmão foi encarregue do povoamento da Galiza e de parte do Condado Portucalense, e terá sido no tempo do Conde que foi construída a torre que se encontra junto à igreja românica de S. João Baptista.

Com a instauração da nacionalidade Cimo de Vila passou a ser reitoria do 1.º conde de Atouguia, guarda-mor da Vila de Chaves, e posteriormente dos outros condes de Atouguia, até que foi incorporada no concelho de Monforte de Rio Livre, em 1759 e posteriormente no concelho de Chaves em 1853.
A História das comunidades rurais quase sempre se fez ao ritmo da igreja e assim as maiores citações aparecem nos livros eclesiásticos. No tecto da Igreja de S. João surge a data de 1131, e alguns historiadores dizem que em 1258 as aldeias de Lebução, Roriz e Paradela tinham uma só igreja e que são dependentes de S. João da Castanheira «et in ipsis villis de Lebusam et de Ruoriz et de Paradela habentur singule ecclesie et sunt sufraganae de ecclesie Castineira.»

Diz o Abade de Baçal que «em 1514 concedeu o papa Leão X a El Rei D. Manuel que se tirassem vinte mil cruzados de renda, nos frutos das Igrejas e Mosteiros de Portugal, para deles se fazerem comendas da Ordem de Cristo reservando-se ainda ao pároco Côngrua sustentação» e na relação das comendas aparece a de S. João Baptista da Castanheira, o que revela a importância que esta paróquia tinha.

Consta que a Castanheira participou activamente nas lutas do pós implantação da República e que por cá andaram os «vermelhos» como se chamava aos combatentes anti-franquistas da guerra civil espanhola, pois as gentes da Castanheira os apoiavam com alimentos e abrigo.


Fonte: http://portugal.veraki.pt

Para mim esta informação acerca da história da nossa aldeia é completamente nova e não sei se não o será para a grande maioria dos Fidalgos!
Daqui podemos tirar várias conclusões:

1º: Se Cimo de Vila é das povoações mais antigas das história por terras flavienses, Paradela também o é, pois tal como se encontra documentado, partilharam a Igreja S. João Baptista.

2º: Parece-me ser bastante provável que a tradição que ainda hoje existe nas duas freguesias seja originária desse período, pois é razoável pensar que os nossos antepassados aquando da construção de um lugar de culto no nosso povo, tenham levado e preservado até hoje esta tradição.

3º: Podemos afirmar com toda a certeza que Paradela já existia entre o período compreendido entre 1131 e 1258...

Apartir de hoje, quando passar pela Igreja de São João Baptista, vou sentí-la um pouco como minha também, sei que há vários séculos já os nossos antepassados prestavam aí o seu culto.




Penso que seria uma excelente promover junto das entidades competentes, nomeadamente as paróquias envolvidas (ou seja Paradela, Cimo de Vila e Roriz), a Diocese de Vila Real e as Juntas de Freguesia uma iniciativa, juntando uma vez por ano na nossa igreja uma missa para que estes factos não morram nos livros de história e para que deste modo os laços que nos unem sejam de novo fortalecidos. É apenas uma ideia, o que acham?

1 comentário:

euroluso disse...

A excelente postagem é uma lição de história que nos dá a saber muito do passado destas terras do Planalto da Bolideira.
Todavia, o costume de fazer passadeiras de flores deve ser comum a outras aldeias da região pois em Travancas já fotografei passadeiras de flores em 2008, aquando da ida do bispo de Vila Real à terra, para crismar alguns jovens da freguesia.
Um abraço