“Eu amo Trás-os-Montes naquele silêncio das florestas e das estradas afastadas que aguardam ora a neve, ora o pavor do Verão. Amo-o ainda mais quando vejo a cor da terra e a sombra dos seus castelos em ruínas, quando suspeito o fundo dos rios, os recantos junto dos açudes e a altura das árvores. E perco-me desse mal de paixão, quando, de longe, Trás-os-Montes se assemelha vagamente a uma terra prometida aos seus filhos mais distantes, ou mais expulsos, ou mais ignorados, ou mais mortos apenas. E amam-se aquelas árvores porque vêm do interior da terra, justamente, sem invocar a sua antiguidade ou a sua grandiosidade. Ama-se o frio, até, o esplendor das geadas sobre os lameiros, o sabor da comida que nunca perdeu a intensidade nem a razão. E amam-se os rios, os areais, os poços das hortas, as cancelas de madeira que vão perdendo a cor, e talvez se amem o fogo das lareiras, os ramos mais altos dos freixos e das cerejeiras, os jardins abonecados das suas cidades, o granito das casas, o cheiro das aldeias onde ao fim da tarde se chama paz ao silêncio e se dá nome de chuva à água do céu.”
Francisco José Viegas

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Moda das Cegadas

Como é tempo de começar a pensar na cegada, e em homenagem aos segadores  de outros tempos, publico aqui uns versos desses velhos tempos, feitos pela minha mãe.

 

Eu não sei que fiz ao sol

Que não há na minha rua

Heide-me vestir de luto

Que de branco anda a lua

 

Viva o nosso ranchinho

Mais quem o acompanha

Viva quem nasceu p'ró mundo

Viva quem nada estranha

 

Viva quem aqui chegou

Mais cedo não pode vir

Ainda chegou bem a tempo

Das nossas falas ouvir

 

Viva a bela sociedade

Dos rapazes extravagantes

Que deixam pais e deixam mães

Para ir ter com as amantes

 

Viva o nosso patrão de hoje

Que é um vaso de alegria

Se nos pagar bem a jeira

Voltaremos n'outro dia

 

Eu hei-de ser o primeiro

A subir a escaleira

Para dar os parabéns

À senhora cozinheira

 

Ò senhora cozinheira

Ponha o pé na sua escada

Venha ver os segadores

Que vem da sua cegada

 

Ó senhora cozinheira

O seu caldo cheira bem

Dê-me uma malguinha dele

Por alma de quem lá tem

 

Ilda dos Reis Cunha

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